Racista educado
Se eu disser que mereço participar do universo, terei que permitir que sou uma de suas vítimas, mas não foi isso que me mãe me ensinou.
Nós – brancos – não superamos o escravismo que fizemos aos negros africanos e aos indígenas do Brasil.
Antes do carnaval de 2023, quando dialogava com minha irmã sobre uma colega que teve uma mãe com traços negros e tem dois irmãos com os mesmos traços, nos referimos ao traço negro como cabelo ruim. Ao propormos a autocorreção do termo para cabelo crespo, percebemos que não superamos a condição de subalternidade que o nosso escravismo colocou nos negros e indígenas.
Fui educado na melhor escola racista brasileira: uma família branca de cidadãos privilegiados pela soberania imperial que se sente protegida pela sua comunidade política, social e religiosa.
Meu caminho estudantil foi estreito, mas minha pigmentocrática escola colocou Platão na minha boca, então a ideia de mérito era uma chance concreta. No entanto, Moisés, o filho de Marcionília, não recebeu a mesma mensagem de Platão, seus caminhos eram bloqueados, pois já nasceu suspeito e a escola passava a ideia de que ele e sua mãe fossem errados.
Na igreja, ouvia que o céu era branco, limpo e puro de uma catequista negra e de um padre branco; desses ouvia que o inferno e os terreiros de macumba eram pretos, sujos e impuros.
Nossos pais foram pobres, ele foi um vaqueiro racista de fazenda de gado e depois, um agenciador de mão de obra (gato no dizer local); e ela, primeiramente
uma dona de casa inconformada com a pobreza, depois uma trabalhadora rural e, por último, uma silente servente escolar. Nossos avós eram classe média baixa, pois possuíam propriedades rurais pequenas. Nossos bisavôs possuíam propriedades rurais maiores e tinham muitos meeiros. Nossos tataravôs possuíam propriedades rurais enormes e escravizados.
Assim o corpo político de minha família é branco e constituído de cidadania imperial: assim fomos educados em casa na família, na escola, na sociedade e na igreja.
Tenho muitas memórias de minha infância, algumas delas cheias de sensibilidades e, quando retratadas, tornam-se políticas, pois é uma linguagem de descobertas, de desaprender processos coloniais, de renovação e reparação ao direito das pessoas afetadas. Em algumas dessas memórias tive que transformar as pessoas nelas existentes para entender como nos fizeram reconhecer um corpo político diferencial, em que a violência poderia ser aplicada de forma desigual por grupos reconhecidos como quem a exerce e contra quem é exercida.
Lembro aqui que esta memória é uma percepção, pois o fato se encontra distante no tempo e eu era uma criança. Em meu primeiro ano na escola, uma mulher negra aterrorizou o meu espaço de menino branco. Marcionília e seu único filho, Moisés, eram vizinhos da escola e os alunos mais velhos jogavam pedras em seu telhado, xingavam e agrediam verbalmente a moral da família. Para se defender, ela era violenta com as crianças, daí o meu medo.
Se Marcionília não tivesse resistindo com violência, eu não teria tido medo dela, não conheceria o pavor que ela me provocava e, posteriormente, não entenderia o dispositivo de poder escravista que a colocou naquela situação subjulgada e eu não me teria racializado.
Marcionília é uma memória afetiva que tento retratar em “Colo mais quente”. A partir disso, construo a sua persistência para além da minha experiência humana e a compartilho na minha intersubjetidade.
Eu só existo assim porque Marcionília existiu.
Reconhecer a existência de Marcionília em meu percurso significou entender que a violência replicada pelos alunos da escola, era o resultado da violência colonial existente na sociedade como um fato, no sentido de como é, o que se é e o que se tem.
A violência que atingiu Marcionília também violentou meu espaço, meu tempo e minha memória, porém nunca experimentarei a exata medida da violência que atingiu sua casa, seu corpo, seu filho e sua história. Desaprender o colonialismo de minha trajetória não conserta o mundo depois do caos, mas na minha memória posso retroceder ao momento anterior da violência ocorrer e seguir adiante a partir daí. Dessa forma, posso buscar diferentes modos transformadores de reparações possíveis, irmanados nas dores de um povo que ainda sofre e é dividido pelas tecnologias do racismo brasileiro.
Quando adulto, aprendi os laços de mutualidade e de coexistência lateral, mas como é para um branco que sempre viveu no privilegio superar o escravismo de seus antepassados? Nossa posição não é de vítima, não fomos violentados, subjulgados, oprimidos ou reduzidos à condição de não ser.
Quem foi reduzido à condição de não ser por uma pessoa branca, não pode mais se sentir confortável em casa de um mundo branco. Na memória dos brancos, a vergonha dos males do escravismo foi apagada, mas na memória dos negros a destruição de seu mundo não pode ser apagada.
Como posso esperar que um negro confie em mim? Aquele que descende do que foi escravizado é hoje prisioneiro nos guetos, favelas e periferias de uma
sociedade branca e enfrenta construções institucionais e sociais de raça, casta, classe e gênero.
Ao educar-me sobre a ordem e os dispositivos de poderes multirraciais escravistas em que vivemos, eu percebi que somos treinados a aceitar a legitimidade da política corporal diferenciada, que protege o branco da violência estatal e social e a aplica contra os nãos brancos.
Meu pai era um racista e ofendia os negros com palavras e ameaças. Certa vez, ainda criança, fui retirado da escola e não pude mais estudar naquele ano. Houve uma troca de prefeito e foi designada uma nova diretora para a escola, uma mulher de cor negra que ainda lembro seu nome: Zuleica. Ela era filha de Otávio, o motorista do carro que recolhia o leite das fazendas e levara até a cooperativa. Meu pai se revoltou contra essa nomeação, a ofendeu e a ameaçou e quando não conseguiu removê-la do cargo, retirou eu e meus irmãos da escola. Ficamos sem estudar naquele ano e, no ano seguinte, mudamos de cidade.
Fui educado no mundo racista dos privilégios da branquitude e necessito ser educado no olhar do negro sobre a ordem em que vivemos em comum.
Jacy Bastos, 2023, Alto Rio Novo ES.
