Sobre Escravistas, Escravizados e Genocidas
“não a compra (a escrava) por não necessitar, mas se o comerciante deseja adquiri-la o proprietário da escrava inclusive a troca por cachaça” Carta do Coronel Duarte à um comerciante da Vila de Itapemirim-ES
Uma coluna no Jornal Folha de São Paulo de 29/09/21 fez uma análise sobre o livro “Sinhá preta” e provocou respostas, reações e embates. Ao lê-las percebi que as verdadeiras transformações sociais são consequências de mudanças culturais, primeiro no pensamento do cada indivíduo, depois nos consensos produzidos. Foi um processo de cura do racismo em que fui educado pelas regras impostas pelas instituições sociais de controle. Nesse sentido, passei a refletir como retratar um conceito que possa ser compartilhado intersubjetivamente e que resista na memória para além da experiência sensorial.
Ainda nessa terceira década do século XXI e com a força avassaladora das redes sociais, diante das lutas para manutenção dos sistemas de privilégios, do rebaixamento do pensamento crítico, da vulgarização e do elitismo das artes será preciso entender no escravismo as estratégias pelas quais os escravos, em posição subordinada ou de senhorio, lutavam para manter uma dignidade na família, nas práticas culturais, religiosas e de resistências. Escravizados nunca foram felizes no cativeiro.
Como homem branco descendo daqueles que escravizaram povos africanos em terras brasileiras e reconheço aqui meu lugar de fala a partir dos privilégios em que fui criado. Meus tataravôs utilizaram mão de obra de escravizados africanos em sua fazenda no Além Paraíba-MG, não tenho mais informações sobre esse fato, nem tenho relatos dos escravizados por meus ancestrais, mas este fato traz para mim uma culpa. É preciso refletir sobre escravistas, escravizados e genocidas no mundo contemporâneo para que uma responsabilidade possa emergir como um princípio político e também moral, em prol da preservação da humanidade e continuidade do mundo.
Hoje, reconheço a minha responsabilidade política e moral que carrego pelo escravismo de africanos e indígenas por meus ancestrais e outros brasileiros.
Diante disso, no meu fazer artístico busco ferramentas para sensibilizar as pessoas para que entendam que o escravismo de negros e índios no Brasil não foi algo distante, abstrato ou pacífico.
O chicote que cortava as costas dos escravizados não se tornou mais leve no mundo contemporâneo. Hoje os negros e indígenas sofrem com apagamentos, invisibilidade, descasos, abandonos, pouca representatividade, silenciamentos, despolitização da etnia ou origem, relaxamento do pensamento crítico por historiadores, jornalistas e formadores de opinião, dentre outros males. Mordaças modernas ainda são colocadas em bocas negras e indígenas para que não denunciem, para que não falem ou reclamem. Fardos pesados ainda repousam sobre cabeças e costas de homens e mulheres que descendem daqueles que viveram as violências do cativeiro e que não foram até hoje recompensados.
O privilégio dos brancos é um escravismo contemporâneo que precisa e deve ser condenado e desmontado.
Até hoje, nós brancos, não paramos para ouvir a voz daqueles que precisam nos contar a violência do cativeiro a partir da própria vivência em que qualquer sentimento humanitário dos brancos é distante da vivência, das memórias e experiências do escravismo praticado. Pouco se publicou na voz dos escravizados e seus descendentes, e quando se publica não choca e não consterna a sociedade para que uma responsabilidade política e moral floresça como principio. Debret e outros viajantes retrataram os escravizados e indígenas já com algum contato com a “civilização” no século XIX, mas com os modos superiores de agir e pensar dos brasileiros de então, não se produziu nenhum efeito de escândalo numa sociedade acostumada ao escravismo de africanos e o genocídio de indígenas.
A chegada de um negreiro, ao porto de São Mateus era uma verdadeira festa. A população ali estava toda reunida, compradores e curiosos. Tudo era movimento (…). Devidamente desembarcados, os negros acorrentados em filha indiana, eram tangidos até o mercado. Ali eram examinados por sua compleição física e até origem tribal. CUNHA, Eduardo Durão. “São Mateus e sua História”. 1994
Dos muitos crimes que se possa atribuir aos brasileiros brancos, o escravismo de africanos e o genocídio de indígenas estão no topo, junto com outros.
Aos negros escravizados e aos indígenas em solo capixaba sobrou, depois das insurreições, do quilombolismo, das revoltas e outras formas de resistências, muito pouco. Isso se denota por uma liberdade precária e dependente, pela moradia nas periferias das cidades, pelos serviços insalubres e pelas terras ruins.
Benedito Meia-Légua, Constância de Angola, Viriato Canção-de-Fogo, Clara Maria do Rosário, princesa de Cabinda Zacimba Gaba, Silvestre Nagô, Negro Rugério, Elisiário, Chico Prego, João Pequeno, João da Viúva Monteiro, Eleutério, Benedito, Carlos, dentre outros precisaram liderar revoltas e insurreições, rebelando-se contra um sistema escravista, mostrando pela resistência que não se deveria mais utilizar mão de obra gratuita de escravizados.
A história do Espírito Santo enaltece o luxo e os êxitos de líderes brancos, mas carece do contrapeso da violência do escravismo de africanos e do genocídio dos indígenas que são nossas zonas de sombras. Aqui, se engrandece o índio Arariboia que se juntou ao portugueses/brasileiros para massacrar outros indígenas e expulsar os franceses do Rio de Janeiro.
Na Serra – ES a Insurreição do Queimado mostra os artifícios sórdidos usados pelos brancos para apropriar-se de mão de obra escrava com promessas falsas, mesmo não tendo escravizados sob seu mando. Frei Gregório de Bene querendo edificar uma igreja no Queimado pediu ajuda dos escravos na construção e em seus sermões exaltava a liberdade e combatia a escravidão, numa promessa implícita para com o sentimento de liberdade dos escravizados. Ao terminarem a construção e não recebendo a liberdade pelos serviços extras, os escravizados se revoltaram e interromperam a missa dos homens brancos, exigindo a liberdade. Foram contidos com novas promessas de liberdade, mas os brancos enviaram pedido de socorro ao Governo, em Vitória. No dia seguinte, chegaram as tropas e foi travada uma luta contra os escravizados que foram derrotados, muitos fugiram para as sertanias das matas. Os líderes Elisiário, João Pequeno e Carlos conseguiram fugir da prisão e não foram recapturados; enquanto Chico Prego e João da Viúva Monteiro foram executados, outros sofreram pena de 300 a 100 açoites.
Em solo capixaba, ocorreu em 1558 a primeira grande exterminação de nativos, sendo este o primeiro genocídio no Brasil, aplicado aos índios Botocudos, na desconhecida Batalha do Cricaré – São Mateus-ES. Nela 200 homens vieram da Bahia, comandados por Fernão de Sá, filho do Governador Geral do Brasil, em auxílio ao Donatário da Capitania do Espírito Santo, Vasco Fernandes Coutinho. O sentido da expedição era conter os levantes indígenas contra a dominação portuguesa/brasileira no território capixaba, o primeiro embate culminou com a morte de centenas de indígenas e também do filho Governador Mem de Sá e de outros portugueses. Depois da morte de seu filho, o próprio Mem de Sá organizou e liderou o massacre dos indígenas.
É nessa zona de sombra e penumbra que pretendo habitar o conceito Sobre Escravistas, Escravizados e Genocidas, num fazer artístico que indique uma denúncia, uma tentativa de sensibilizar ou mesmo chocar o observador. É imprescindível trabalhar o cânone para que tenha um significado textual e instrumental das memórias difíceis que remetem as lembranças sombrias da nossa história e da contemporaneidade, uma vez que nossa sociedade prefere consciente e inconscientemente não ver e não lembrar.
É contra essa banalização do escravismo e do genocídio e dos seus efeitos nos dias de hoje que preciso me posicionar. Entendo que estes fatos mancharam de monstruosidade nossa sociedade e é preciso emergir dela uma responsabilidade política e moral. É preciso fazer um julgamento moral de nossos modos de vida, das instituições, de nossos líderes, de nossas elites que utilizaram mão de obra escrava e de quem tenta retificar, minimizar ou atenuar os horrores que foram o escravismo e o genocídio em nosso país.
“ouve-se gritos …o chicote estala.” Navio Negreiro – Castro Alves
Jacy Bastos
Verão de 2021
